quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Anjo branco

Naquele dia
Naquele aniversário
Tudo tão teu e tu fora daqui
Não te tenho mas trago-te aqui
E assim do nada fui directa a ti
Era noite, noite cerrada
As velas a velarem campas
Pessoas ali a parecerem mantas
Sem lhes ver o rosto, para que lá vamos?
Será o meu ver, o dos insanos?
Noite cerrada e os fantasmas enterrados
Há lá maior paz do que estar no meio do vazio
E sentirmos dali oriunda uma vida e tantas outras
Sem que respirem mas que as suas emoções boas cá tenham deixado
Tudo aceso em velas e em candeeiros, tudo apagado
Tudo repleto de almas e tudo sem cheiro, abandonado
Horas tardias naquele lugar acumulado
De vidas perdidas que tiveram um passado
Que já passou e agora é chão pisado
Flores murchas que se devem dar em vida
Depois da morte não há flor que sobreviva
As campas secam com os corpos decompostos
Os fôlegos e os suspiros de aflição são poucos
Sabia-te lá espiritualmente de alguma maneira
Mas não queira vir a dizer alguma asneira
Chamei-te duas vezes e apenas à terceira
Vi na minha direcção um gato branco igual a um anjo
Chamei-te outra vez e senti- me inteira
O gato fez-me festas até subir no meu colo
Eu acarinhei-o e dei-lhe o meu maior consolo
Senti- te comigo ali
E não era um gato qualquer
Nem um gato matreiro
Nem um gato de rua com cheiro
Era um gato especial e dado
Queria que o levasse para casa
E não eras tu
Mas era o teu abraço
E a tua presença
Naquele gato

Vanessa Cardui


Foto: Christian Raspuns.Ioana 

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