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sábado, 22 de julho de 2017

Potente impotência

Sinto-me incapacitada. Incapacitada para que os dias que têm que ser passados a correr, se passem estupidamente rápido.
Sinto-me impotente. Impotente perante aquilo que sei que está em mim e que não consigo controlar a sua intensidade - a minha força.
Sinto-me numa inércia incrível estando em movimento.
Sinto-me uma sobrevivente de sequelas da vida e uma vidente da minha vida. A vida é minha e não de mais ninguém.
Sinto-me trémula e com as ideias tonificadas.
Sinto-me renitente quanto ao futuro e ansiosa pelo presente que não passa.
Sinto- me pressionada pelo tempo, pela vida que escasseia com o passar dos dias.
Sinto-me presa à vida e tão solta dela quando não a queria de uma dorma ou de outra. É a minha vida. Penitências e dissabores; felicidades e multisabores. A vida é feita disto. E de muito mais.
E a minha vida é feita disto... e de pouco mais...a não ser o  amor; esse é tão grande que chega a ser maior do que a vida!

Vanessa Cardui
(In "38 Homens Depois ")

#blogger #borboletrasdecardui #paulocorreiaphotography #vanessacarduiquotes


Foto: Paulo Correia

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Libidinar-te

Occipital dormente
Mão tão bem assente
Nádegas acondicionadas
Abdutores contraídos
Mãos a apertar com força de vontade
Braços a abraçar com força de verdade
Dedos escorregadios
Braços deambulantes
Corpos tão nossos e tão viajantes
Almas tão devoradoras e tão viciantes
Toques desmesurados e tentados de cor
Peito contra peito
E somos assim
Seja de que forma for
Cobertores para nos aquecer
Sem necessidade de existência
Tal é o calor humano a permanecer
Que detém decerto a maior influência
União de facto e factual
Tão cúmplice sem igual
Genitais armados e desarmados
Suores quentes e frios e arrepios
Palavras saídas da boca e engolidas
Beijos despidos de nós e tão envolvidos
Prazer com cor e gemidos bons escondidos
Deitados para dentro e por dentro
Deitados por nós afora
Abençoado o tempo em que nos encontrámos
Relativizado o tempo que é tão demorado
Mas corre tão rápido a passar
E afinal não demora
Existimos por dentro
Mas também por fora
Se o que está fora acabar
O que está dentro vai evaporar
Mas o que é nosso demora
E é o que mais vai demorar
A ir embora...

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois ")


Foto: Paulo Correia

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ensaio 1 - Ramificações

Dualidade de uma árvore com frutos
Laterais de vida tão coincidentes
Ventos e tempestades surdos mudos
Encontros de verdades crus e cruéis
Montes de vales e pomares de pensares
Almas tão cheias que não sabem o que trazes
Vivas e tão imensas de vida que satisfazem demais
Almas nómadas que acompanham mares
Almas levadas pelo vento de uma árvore crescida demais
Levada ao vento toda, inteira e em partes iguais
Abrigada na verdade com tamanha e angustiada vontade
Sem rumo a alma de quem é sonhador
Tamanho sonho move em todo o seu redor
Maldade espalhada em sedentarismo extraordinário
Prefere ir com o vento e ser ela magicamente mágica
Sem melancolia
De noite ou de dia
Frenetica e espontaneamente
Anda como o vento
Dispara movimento
E tudo o que é alma sente
Mas esta alma é gente
Gente que anda pela vida
E a quer ver vivida
A mãe árvore da vida
A mãe árvore da vida que se deu
Em nós, do ventre e da alma
Nem tudo  o que nasce vem com calma
A fugacidade e velocidade também acalma
Adrenalina para a alma
Prozac para o lixo
Liberdade para a cabeça
Uma vida nómada com raízes
As ramificações somos nós
A época de floração está a começar
Não interessa o durante nem o após
Quando correr é tão fácil
E a vida não demora
E o timing é agora
A dualidade de papéis invertidos
Ponderados e demasiado  inteligentes
Pensamentos deveras enlouquecidos
Mas suficientemente suficientes
Para que a vida passe a correr
Mas se é para passar
Que passe com todo o prazer

Vanessa Cardui
(In "38 Homens Depois ")


Foto: Paulo Correia 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ensaio 1 - Maltratada

"E dás por ela ali, deitada
Atirada e quase pisada
Humilhada e esquecida
Completamente perdida
Da puta da sua vida
Que quase se deu por acabada
Por achar que ela não valia nada
E ali à mão de semear estava ela
Tal e qual como um barco à vela
Bem como o sapato da Cinderela
Mas descalços estavam
Os teu pés encardidos
O teu mundo cinzento
E os vestes escondidos
Tu ali maltratada de ti
Num sofrimento sem fim
Deixada ali, sem dó nem piedade
Crucificada assim, por seres verdade
Por seres de carne e osso
Por poderes cair e levantar
Mas nunca caias num poço
Que sabes que não podes escapar"

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois ")


Foto: Paulo Correia

sábado, 3 de junho de 2017

Ensaio I - A Despedida de solteira - Pelo na venta

"Uma prostituta só devia abrir a boca para fazer bicos" - ouviu-se dizer.
De mau tom, tendo em conta que esta afirmação saiu da boca de um dos clientes mais assíduos na casa. Basicamente o mais "com a mania que era culto e bom" e o mais frustrado, em simultâneo. Daquelas pessoas das que se dispensam pouca análise por se acharem, precisamente,  superiores a tudo e todos.
Fui ter com a menina que estava a ser "chingada", sem a própria saber. (Na verdade, todas ali eram "chingadas", ou melhor, rotuladas; logo, desvalorizadas,  sobretudo na qualidade de mulheres).
Fiz-lhe sinal duas vezes para se baixar para lhe dizer algo... só à segunda o percebeu... e convenhamos, só olhou para mim por ser mulher; precisamente por não ser usual ser abordada por uma mulher.
Baixou-se. E eu disse: "mostra quem manda àqueles caramelos! Eles chamaram-te galdéria sem léria!"
Ela piscou o olho e simplesmente continuou o seu espectáculo. No final agradeceu e foi ter com o que parecia ser o líder do grupo. Sentou-se no colo dele. Ele levou a sua mão imediatamente às suas mamas. O estalo dela assentou imensamemte bem na sua fronha. Assentou mesmo bem! Levantou-se e disse:
- se tens mulher, não te venhas entreter com galdérias, ó palhaço!!! Não estás satisfeito com a tua vida,escreve no livro de reclamações de tua casa.
Os homens que ali param esquecem- se do caminho que fizeram muito facilmente, pensam,  por momentos, que cairam logo ali,  naquele antro...que chatice.... até nem estarão a precisar de algo quando ali pousam, quer seja via teletransporte ou com GPS.
Uns vão por fetiche, outros por necessidade e outros ppr desequilíbrios mentais depravados. Há de tudo um pouco, menos a decência das máscaras da elite que se mostram na sociedade. Nada é real, ali. E se ali não é,  na vida real desses, ainda menos!
Considero que algumas das meninas que ali trabalhavam o faziam por necessidade, sim, apesar de mostrarem sérios atributos e aptidões para os table-dances. Mas outras trabalhavam mesmo com prazer; tanto ou tão pouco que era o que elas transpiravam; mais do que sensualidade por todos os poros,  tesão e vontade de sexo. Umas eram contidas e funcionárias; outras eram ousadas, demasiado atrevidas e putas - no verdadeiro sentido lato da palavra.

Vanessa Cardui
(In "38 Homens Depois ")


Foto:Vanessa Cardui / Paulo Nuno Santos 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Espelhados e despedaçados

"Voltas e piruetas na cama a desnivelar
Rectas e contracurvas nos lençóis a circular
Para sentir bem é preciso saber provar melhor
Com vontade e sem fretes a acompanhar
Sabes lá apreciar de verdade quando fodes!
Sabes as minhas cuecas? Eram de que cor?
E o resto? Lembras-te daquelas posições invertidas?
Como te podias esquecer, não é? Fodas loucas e bandidas
Fodias como gente grande mas era uma pena
Não sabias ser grande no que queria em cena
Por tua sorte e por minha que o jogo acabou
Isto era um jogo ou um flash que se passou?
Se te arrependes ou não ou se era amor, agora não
Estúpido de ti se alguma vez me julgaste na palma da mão
Não servias para mais nada tal como eu não servia para ti
A não ser para foder que era apenas o que nos dava prazer
Foder ali, sem só nem piedade
Foder ali no meio, sem dignidade
Figuras tristes arrependidas
Figuras guardadas esquecidas
Orgasmos inventados em tantas saídas
Pensaste grande como a Torre Eiffel
Mas sabes, até que pareces mel
Iludes mas não és, és mais pequeno por dentro do que por fora
E já cresceste tanto e tão pouco, crescer ainda mais ainda demora
E eu não tenho tempo para repetições de falsos sentimentos
Nem paciência para esperar pelo tempo que não espera por mim
E o melhor de tudo é dizer ao não com toda a certeza que sim!"

Vanessa Cardui
(In "38 Homens Depois")


Foto: Paulo Nuno Santos


terça-feira, 9 de maio de 2017

Ensaio I - Gaudens

"Vem- te comigo tal como eu me venho contigo
Deixa- te ir pelo meus gemidos calados que só tu ouves
Deixa-te de historietas e vem-te, vem- te já
Se não te vieres já podes depois chamar- me má
Não porque eu o seja mas porque ainda me queres cá
Eu quero- te dentro e fora e de fora para dentro
Quero perder-me sossegada em ti a toda a hora
Deixa-te vir sem quereres já por parar
Mas não pares porque te vou arrancar
Para mais um second round a rebentar
De movimentos coordenados a descoordenar
As pernas a tremer, os nossos corpos a suar
Beijos a arder, vontades que nos enlouquecem
Corações a derreter e cabeças que enfurecem
De tesão,  paixão e amor
Com tanta convicção
Seja de que forma for
Pois entre a tesão e o orgasmo do que é sentir
Existindo tu aqui, não preciso de muito para me vir
Um copo de vinho e dois corpos nus à lareira
Serão fogoso de como quem cai por uma ribanceira
Quedas de skate em terra batida
E a tua maior queda dentro de mim
Ondas mal lidas e gemidos bem surfados
Terra em que somos nós os desventurados
Um ar que tão bem respiramos de apaixonados
Corpos irrequietos e genitais endiabrados
Partes secretas e sentimentos penetrados
Que ali jazem, dentro de mim onde tu também estás
Quero-te sempre aqui pelo bem que isto me faz
Lambe-me com o teu amor na lingua que tão bem sabes fazer
Despe-me devagar e desorienta-me como tão bem me sabes desorientar
Tiras-me do sério sempre  e vais sempre tirar
Contigo ausente nem consigo situar
Sem o teu corpo por perto estou a divagar
Bússola que me controla não me deixes parar
O que eu quero é isto e não dá para ser devagar"

Vanessa Cardui
(In "38 Homens Depois ")

*gaudens =  orgasmo (latim)


Ensaio I - despedida da parvoeira

"Era a noite da maior parvoeira de sempre. Eu tinha a certeza disso. Limitei-me a esperar de tudo, o que não aconteceu com algumas das convidadas que em algum momento se sentiram constrangidas tendo em conta o seu estatuto e não a sua vontade.
Ela nem sabia bem se era mesmo isso que ela queria:  casar. E se a sua decisão se dignasse à minha opinião o passo a seguir seria para trás e não para frente. Eu entitutalva-me como anti-casamentos e fazia questão de não querer sequer pensar em apanhar um ramo. Para mim, o casamento não passa de um papel. Os votos podem sempre fazer- se a qualquer altura, quer se case ou não. No entanto ela não me ouvia por não me querer ouvir. Tinha legitimidade para isso. Afinal ela era a noiva e o que menos lhe faltava eram minhocas na cabeça a esta altura do campeonato. Decidi compactuar com as cenas todas que envolveriam o seu casamento, nunca deixando de ser eu mesma. O pré, o durante, o pós e whatever. Estaria ali para tudo desde que fosse essa a sua vontade e, de facto, parecia ser. Até àquele dia, sou franca. Pus tudo em dúvida, porque eu própria senti-a na dúvida,  deslumbrada e, em simultâneo, apavorada e desgastada. Afinal já se tratava de um relacionamento severamente longo e as coisas tendem a complicar- se quando um ou outro não tem "tomates" suficientes para acabar com tudo de uma vez por todas, a ponto de avançar com tudo, de uma vez por todas.
Estranho mas típico, isto é, na grande maioria das cabecinhas femininas que se vêem por aí. Seguem a tradição porque parece bem ou por parecer que vai resolver algum problema. Enfim. Só o que tenho a dizer. Mas depois há o divórcio. Há sempre o divórcio quando os "tomates" já não aguentam mais de tão apertados  ( de ambas as partes, óbvio! )
As coisas nascem das vontades e dos prazeres que temos aquando momentos. Expectativas de criança que nos ficam lacradas como se-fosse-uma-coisa-que-tivéssemos- mesmo- que-fazer: casar e ter filhos.
"Nem tudo o que parece é", "nem tudo o que luz é ouro", digo sem falsos rodeios nem ideias mirambulantes.
Ela queria casar, fixe, eu apoiei. Incondicionalmente. E não podia ser de outra maneira. Éramos como se fossemos irmãs de sangue, só não tínhamos os mesmos objectivos e...cada um é como é.
A despedida de solteira da melhor minha melhor amiga, das gajas mais esgalhadas que já conheci mas,em simultâneo,  das mais benéficas e mais puras em toda a minha vida. E eu gostava dela assim e ela de mim assim. A felicidade de uma era a da outra e vice- versa.
- Caralho, miúda! Vais ter a melhor despedida de solteira de sempre!
- Já fizeste merda!
Rimos e já sabíamos.
E foi basicamente isso que aconteceu que entretanto conto mais pormenorizadamente. "

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois ")


Foto: Vanessa Cardui 

quinta-feira, 30 de março de 2017

Ensaio I - evol vs love

"Evol / Love.
Desta dicotomia surge o enigma, o desafio de querer perceber a diferença entre love e evol e bem que entendendo, numa primeira instância, que se trata da palavra dita e escrita ao contrário. A primeira diferença que salta à vista. E então? Será uma mera tentativa original ou apenas uma forma de nos mostrar uma outra dimensão do amor, que, lá está, existe para quem não for céptcico. Aos que forem, mais vale pararem por aqui. Ou então iniciem o raciocínio desta forma: amor-ódio. É aqui onde tudo se origina, ou não, basicamente. Isto é,  quando os dois termos colidem e se fundem baralhando as pessoas e os corações que nelam bombeiam. E é todo um processo complicado...não só de adaptação,  como também de nitidez. A última não existe no evol. E, supostamente, haveria de existir no amor. No evol não existe. Não só a palavra é literalmente ao contrário como a noção também. Não completamente inversa mas oposta,  digamos assim,  ou um pouco controversa.
O amor tem tendência a ser um sentimento apresentado no seu estado mais puro e com espontânea e genuinidade. O amor não é de cerimónias!
O evol é como um género de amor, não se pode dizer que não, mas não deixa de ser um falso amor!  Evol e love são termos e sentimentos muito distintos.
Evol captando de uma forma rápida algum tipo de evolução que até pode até existir, mas também não faz grande questão de existir.
Na verdade é que existem mais pessoas por aí que estão mais "in evol" do que propriamente "in love", a verdade nua e crua é esta. Por estas e por outras, cabe-vos analisar os sinais e os passos. E, sobretudo, saber ler nas entrelinhas e, convenhamos, para nós é o mais fácil! "

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois ")


By Vanessa Cardui 

Ensaio I - Vive vezes sem conta

"Vive, como se não houvesse amanhã
Vive, como se o tempo acabasse hoje
Vive, como se o tua vida acabasse agora
Vive, sem momentos, sem nada
Vive, louca e desmesuradamente
Vive, faz, acontece e faz acontecer
Vive, com gana, com vontade
Com aquela liberdade que só tu vês
Vive, hoje, agora, já, sem impedimentos
Vive, como se o tempo expirasse
Vive sozinho e não vivas a vida de ninguém
Só interessa a tua, hoje, agora e já
Vive com aquela vontade oriunda de ti
Uma vontade, uma puta de uma vontade
Que te deixa ser feliz, agora e já..."

Vanessa Cardui
(in "38 homens depois")


quarta-feira, 29 de março de 2017

Ensaio I - possessionem

"Quero-te como quem quer matar a fome
Quero-te como quem quer matar a sede
Quero-te como quem ambiciona a felicidade
Quero-te por pancada e até por sadismo
Quero-te tanto e não te quero nada
Quero-te por loucura ou por necessidade
Quero-te tão pouco e com tanta necessidade
Quero-te perdido de mim e encontrado aqui
Quero-te sem querer porquê e porque me faz bem
Quero-te por tesão e com paixão
Quero-te aqui e tão longe de mim
Quero-te a ti…até mais não…"

Vanessa Cardui
(in "38 homens depois")

*possessionem = possessão 


Foto: Vanessa Cardui 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Ensaio 1 - vinte e três do aço


"Vinte e três 

Olhos: azuis
Tez: clara
Estatura: média e completamente definido (com tudo,  tudo,  tudo no sítio! )
Pêlos: nenhuns
Barba: cerrada
Cabelo: castanho escuro, curto e encaracolado 
Tatuagens: sim
Idade: 35
Profissão: Enfermeiro 

Tudo começou com uma quebra de te(n)são, uma ida à urgência e um ligeiro socorro. Até com pulseira laranja eu não descurava do meu ensaio. Sempre atenta a tudo, principalmente ao comportamento dos homens e às suas reacções às situações mais adversas jamais imaginadas. Assim foi. Ele mediu-me a te(n)são e deixou-me com ela. E eu deixei-o com arritmia, apenas e só naquele dia. 
Ele era como o céu azul e pacífico, repleto de paz no voo dos pássaros por ele afora perdidos.
Ele era lisonjeiro. E picante. Ele não picava na língua mas picava-me por dentro e isso é que me dava gana e vontade de querer. Ele era o próximo a ser testado. 
Tinha duas facetas, o que eu apreciava. A parte anjo e a parte do diabo. É, sempurgência re fui assim, esquisita. Monotonia não condiz comigo, de todo! 
Resultaria ou não? Pararia ali? Ninguém sabe nada!   Se nem o tempo sabe, quanto mais nós!
Não me contive grande coisa, a verdade é essa! Nesta fase do campeonato confesso que já que os seleccionava à minha maneira  (para serem testados), tudo era à minha maneira,  desde 'aproveitar' a 'deitar fora'. Se assim não fosse, nexxxxxxxxt!
O vinte e três era fogo. Pegava-me ao colo de uma maneira quase insaciável mas nem tão pouco me apertava. Era esquisito, não de mau teor, mas de bom. Fazia tudo com muita intensidade, mas tanta, e sempre, sempre com mãos de fada.
Eu e ele entendiamo-nos bastante bem. Tirando ido mais nada poderia funcionar. Havia a distância. E não me venham com merdas porque fodas sabemos que é uma condicionante que pode levar à ruptura em qualquer relacionamento. Não que isso o tenha obrigatoriamente de despoletar, mas chama à tona desconfianças que até poderiam não existir, de uma forma involuntária e quase inconsciente. Mas, não fugindo ao assunto e não querendo falar disso agora nesta parte em concreto, continuemos.
Ele tinha um cheiro bom, tão peculiar e se tivessem ficado teria sido uma flor... pena eu não saber cuidar de uma flor, em condições, deixo-a sempre morrer. É o oito ou o oitenta. E com ele foi assim. Por isso nem deu para continuar. Ficámos no oitenta e um. Nem mais nem menos. Rebentou a escala. E, bem sabem, uma mulher resolvida não tem medo, mas quando os sentimentos começam a disparar, as coisas tendem a complicar-se."

Vanessa Cardui 
(In "38 homens depois ")


Foto: Vanessa Cardui 

domingo, 11 de dezembro de 2016

Ensaio 1 - "Vida era dela"

"Porque é que ela nunca procurou a perfeição se não agora?! E porque é que ela sabia que não a ia encontrar e vai na volta, e pelo caminho meio atribulado, encontrou-a? Não à perfeição mas sim à felicidade. À felicidade e ao caminho mais apropriado para uma vida tranquila e, sobretudo, para a paz de espírito.
Até agora ela sabia que não era realmente possível na íntegra ser perfeitamente feliz (diferença assolapante entre 'o ser feliz') e, efectivamente, sabia-o.
Ela que era e que continuo a ser eu, eu que escrevo esta espécie de ensaio. No entanto agora sei-o de forma diferente. Agora sei que o perfeito não existe mas que existe o "lá perto". Agora já sei que afinal o perfeito (que para nós, para cada uma de nós, é perfeito) e olhem que não fica assim tão longe.
O perfeito está intrínsecamente ligado à auto-confiança, à autonomia, à não influência por parte do mundo deplorável que nos rodeia que, por vezes, nos dá o ar da sua graça (infelizmente e para mal dos nossos pecados)! Um mundo que não existe, de todo, a não ser dentro de nós mesmas..
Uma vida num mundo, tantas vidas no mundo! E nós por aqui, talvez ainda à procura de um melhor sentido para a nossa..."

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois")


Foto: Vanessa Cardui


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ensaio 1 - "Tudo VS Nada

"-Conta-me como foi aquela vez em que bateste comigo de frente. O que sentiste?
-Vi tudo o que queria ver.
-Tudo ou nada?
-Tudo!
-Mas não viste nada!
-Precisamente. Não vi nada mas vi tudo o que queria ver para ver e querer tudo.
-Tudo o quê?
-Toda tu! Apetece-me comer-te!
-Com tudo ou sem nada?
-Contigo e comigo. Tudo. Sem nada, sem roupa. "

Ele parecia um telegrama. Eu fingia-me igual. Mas certeiro e intrigante o bastante para me manter naquele fogo irrompido pelo desejo que se apoderava de mim... E não só, dele também...

-Sentes dor?
-Não.
-Então?
-Dormência...
-Onde?!
-Em todo o lado!! Deixas-me totalmente dormente... Da cabeça aos pés!

E se eu te perguntasse quantas vezes pensas em mim, saberias responder? Eu saberia. Penso em ti a todo o instante, desde que aquela empatia se deu... Foi fodido de bom!!! Não dá para explicar o que é ter-te dentro de mim, sentir-te dentro de mim, fundido comigo, apaixonado naquele momento ...tudo perfeito! Aquele momento contou muito para mim! E sinto que contou para ti também! Disse que não estava a sentir o teu batimento cardíaco, mas senti, acelerado... Como eu... Acelerados, os dois... Doidos para nos acelerarmos outra e outra vez! "

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois")


Foto: Vanessa Cardui 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ensaio 1 - "Almanopatias"

"Almanopatias"
Designação que dou às adenopatias da alma, das nossas entranhas... Do mais fundo de nós...
Estas são aquelas que passam mas que demoram quase uma vida a cicatrizar. E quando parecem estar prestes a cicatrizar, têm recidivas...mais, até mossas que não estamos à espera..até tudo!!!
Não controlamos o nosso subconsciente mas controlamo-nos a nós. Somos nós que gerimos as nossas "almanopatias" e só nós sabemos onde estão alocadas.
Nisto da nossa vida, por mais que até mostremos aos outros um pouco dela, as verdadeiras coordenadas do nosso gps mental somos só nós quem as sabemos.
Um amor mal resolvido é bem capaz de ser pior do que uma faca espetada dentro de nós, mas um amor falso é uma lufada de ar fresco quando acaba! E sabem que mais!! Foi produtivo, em qualquer uma das hipóteses, pois cada "marrada" na parede faz-nos aprender a não dar outra no mesmo sítio.
Precisamos de ser nós. Precisamos sempre de nós, primeiro e antes de mais nada. Se nós tivermos que prender a alguma coisa, que seja numa primeira instância em nós mesmas ! Depois vem o resto que lógico que faz falta, lógico que massacra não ter, lógico que nos faz sentir ainda mais nostálgicas! Na verdade, as mulheres mais profundas e com a personalidade mais forte, não sabem estar sozinhas. Eu não sabia, mas aprendi a saber. Mas isso não vale a pena saberem porque a vossa vida continua (tal como a minha continuou) e a verdade é que todas nós temos direito à felicidade. Eu escolhi a felicidade solitária sabendo que aquela que vos sugiro durante esta exposição na totalidade é, de longe, a melhor. Daí a querer que prefiram o que não preferi... Talvez num próximo ensaio dê as dicas inversas! Tudo é possível, nesta hora e neste ensaio...e sobretudo, na vida!"

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois")


Foto: Paulo Nuno Santos

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Ensaio 1 - "Arriscar e provar"

"No início de toda a sua vida, ela sempre tivera medo de arriscar. Até  aprender, até bater muitas vezes com a cabeça na parede (turras bem dadas se é que me faço entender), ela tinha medo de arriscar. Quando escreveu as primeiras linhas desta espécie de ensaio, ela perdera esse medo por completo. Naquele momento ela já não tinha medo de arriscar com medo de falhar. Ela já era ela, e por consequência, eu. Ela era eu, um novo eu, um eu mais crescido, mais resolvido, mais "nem tanto ao mar, nem tanto à terra". Todas as que arriscam correm riscos, evidentemente. E eu assumo ter corrido muitos riscos! Mas há sempre aquele arriscar mais arriscado, em que o facto de arriscar faz um pleonasmo ao risco tornando-o ainda mais arriscado? Medo? Não! Confusão? Sim! Estamos no caminho certo, ok, continuando.
Arriscar é uma aventura. E nós, nós mulheres, precisamos de aventuras que nos proporcionem aquele tipo de adrenalina que , muitas vezes, nos faltam na nossa vida. Sejam daquelas em que uns braços de sonho nos fazem cair o queixo, ou daquelas em que um sixpack nos faz sonhar à noite inteira em lavar roupa num tanque (Ahahahahah!)
Quando falamos em arriscar temos que ter a perfeita noção de que tanto podemos subir ao orgulho como ferir o orgulho. E quer numa, quer noutra hipótese, as consequências são perfeitamente dispensáveis, tendo em conta que o que queremos, de facto, é ter uma vida feliz.
Quem não arrisca vive sempre em monotonia constante, alarmante, angustiante, deprimente (por mais que se goste de estar sozinha, não se justifica a monotonia total, isso é um grande factor de desmotivação na vida)!
A monotonia é um silêncio irrequieto, avassalador, também o posso dizer, é uma realidade. Uma monotonia entra-nos pelas noites, e pelos dias; e que dias, e que noites!...
Monotonia que estraga momentos, gestos, fantasias e até desgasta sonhos; sonhos tão fodidos de bons! Sonhos que são um desperdício para serem deitados fora, assim, do nada. Não deixem que isso vos aconteça, principalmente numa relação (porque a vida é escolhida por nós e é nossa e só nossa)!Quando isso acontece, é sintonia em exagero - a dita monotonia irreversível - não dá como voltar atrás, nada pode ser reconstruído, a tendência é sempre a de piorar.
Tudo depende de nós, da nossa convicção, da nossa poderosa personalidade que se vinca a quer a cada passo bem dado, quer a cada passo mal dado. A verdade nua e crua é esta e só esta!
Ter a convicção de que tudo corre bem é meio caminho andado para que tudo corra bem.
Pessimismo puxa pessimismo e optimismo puxa optimismo! Fácil!
Quanto às consequências que possam ser piores, enfim, é a vida é acreditem que os dissabores da vida, às vezes, são os melhores, porque são os que mais nos ensinam sem darmos conta por estarmos entretidas a sofrer. Ainda não se a perceberam que sofrer não nos serve de nada e que um sorriso , por vezes, adianta muito mais? Parem para pensar nisso, (isto claro, às mais pessimistas) e surpreendam-se..."

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois")


Foto: Vanessa Cardui

sábado, 19 de novembro de 2016

Ensaio 1 - Ela por nós!

"Ela era ela. Tão cheia dela e tão ela! Ela era ela e não conseguia (nem sabia, convenhamos) saber ser outra que não ela. Ela era firme nas decisões, por mais que elas doessem, mas acabariam por calejar e por deixar de massacrar com dor. A dor passava, muitas vezes, com um simples reset ao passado, e sim, isso é possível...
Reset para depois aquele On que tem durabilidade vitalícia e com uma potência puta que pariu!
Ela até podia sofrer por tudo e mais alguma coisa, mas sofria rápido e não guarda rancores porque tudo o que precisa de dizer, efectivamente diz! Ela tem força, uma força dentro dela que nem ela imagina a sua dimensão. Ela faz de conta que é ingénua e não percebe, muitas vezes, para saber em quem confiar. É esta a sua forma mais inteligente e subtil de testar as pessoas.
Porque é que ela nunca procurou a perfeição se não agora?! E porque é que ela sabia que não a ia encontrar e, vai na volta, e por um caminho meio atribulado, encontrou-a? Não à perfeição mas sim, à felicidade. A esta e ao caminho mais apropriado para uma vida tranquila e, sobretudo, para a paz de espírito.
Até agora ela sabia que não era realmente possível na íntegra ser perfeitamente feliz (diferença assolapante entre 'o ser feliz') e, efectivamente, sabia-o.
No entanto agora sei-o de forma diferente. Agora sei que o perfeito não existe mas que existe o "lá perto". Agora já sei que afinal o perfeito (que para nós, para cada uma de nós, é perfeito) e olhem que não fica assim tão longe.
O perfeito está intrínsecamente ligado à auto-confiança, à autonomia, à não influência por parte do mundo deplorável que nos rodeia que, por vezes, nos dá o ar da sua graça (infelizmente e para mal dos nossos pecados)!
Ela sou eu, um alter-ego criado à minha maneira e com quem mantenho uma excelente relação. É um vínculo incalculável !
Ela que era e que continuo a ser eu, eu que escrevo esta espécie de ensaio... Que está a dar muito que falar..."

Vanessa Cardui
(In " 38 homens depois")


Foto : Vanessa Cardui / Tiago Branco

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Ensaio 1 - "peso e medida"

"Não digas nada. Faz! Não profiras uma única palavra sem dares um grito mudo! Sobretudo não faças o que não quiseres fazer! Não sejas mais nem menos do que aquilo que tu és! Sê a tua essência em tudo o que tu és e queres ser.
Não faças merda! Lembra-te que tu és a tua própria felicidade! Para além de ti, não há mais ninguém que possa ser feliz por ti, com tudo o que este vocábulo pode implicar.
Se te apetecer beijar, beija! Se te apetecer brincar aos 'Cowboys', brinca! Se te apetecer foder, fode! Se te apetecer ser feliz, arrisca!
Sem arriscar não somos rigorosamente nada. Nada! E se formos alguma coisa, somos restos. Restos de merdice, restos de coisas por acabar, restos de sonhos por concretizar! E restos não nos interessam para nada. Nem restos nem meios restos! Nem merdas... Nem pedras (esta devo-a a um grande amigo meu que me ajudou a encontrar muitas pedras no caminho, e a ultrapassá-las). Pedras e merdas é a vida resumida, no fundo. Obstáculos e merdas. Depois consoante a nossa conduta obtemos a felicidade, ou não.
A maior parte das pessoas é de um comodismo tão grande que, por vezes, nem se dá ao trabalho de sequer querer saber o que é a felicidade; e só faz aquilo e aquilo mesmo! Sedentarismo da vida, a pior das solidões - a maior com vós mesmas.Já disse e volto a dizer, nem oito nem oitenta (acreditem que nem um nem outro funcionam)... cada coisa deverá ter sempre o seu peso e a sua medida, ou não?"

Vanessa Cardui
(In "38 homens depois")



Foto: Paulo Nuno Santos / Tiago Branco


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Ensaio 1 - "Catorze tentativas falhadas"




"Quais são?... Quais são as tuas fantasias sexuais? " – Todas têm, mas poucas o admitem, normalmente quem o faz são aquelas mulheres que são feitas de muita fibra.
Tal como nós, eles também as têm. Assim como as mulheres, eles possuem zonas erógeneas que podem dar tanto prazer como o pénis ou a vagina. Porém, tudo depende... Em  cada um... Tudo diferente. 
É verdade que a maior parte dos homens gosta que se lhes toque nos mamilos, mas nunca nos podemos esquecer que poderão existir alguns que já não acharão piada à brincadeira. E só temos que respeitar, tal como eles terão que aceitar o facto de também não apreciarmos alguma coisa em concreto. A ideia é estarmos perfeitamente confortáveis, com ele e com nós mesmas. Para isso, a comunicação q.b. que falei anteriormente, ser extremamente importante. Concluímos, que enquanto alguns gostam e apreciam bastante os beijos ou mordidelas/lambidelas nos mamilos, é certo; outros já podem vir a sentir-se um pouco incomodados com isso. E lá está, perguntando (sempre de forma subtil) quais as suas fantasias sexuais, os preliminares funcionarão sempre muito melhor e superarão qualquer expectativa!
Nos preliminares, o segredo é a excitação, o fogo e a sensação de perigo ardente da união dos corpos. Qualquer coisa de inexplicável...E única! A pureza do mais maravilhoso sexo! Aquele sexo que se lembra sempre que se tem na vida. Mas que passa, e deixa de ter piada, a dada altura.
Convém que na hora do sexo haja reciprocidade na estimulação.
É impreterível a experiência de sentir novas sensações, novos movimentos e, consequentemente, novos orgasmos... Novas vidas seguidas da revitalização das almas que se unem e se fundem, experimentando e re-experimentando. Até podemos descartar o ginásio e dedicarmo-nos ao "Bangfit"(modalidade de exercício físico que envolve apenas e só sexo). Afinal, agora a modalidade tem nome, no entanto não é assim tão linear como pensamos. No fundo, a minha relação com o Catorze não passava apenas de uma modalidade que eu praticava.
Neste campo surge sempre a comunicação, de carácter fulcral para este tema.
Independentemente de se conheceram há anos ou há cinco minutos, é de grande importância. Muito importante comunicar de uma ou de outra maneira é sempre importante. Mas em sussurros, há -de ser sempre melhor!
"Gostas de sexo oral?!" - eis uma questão que não devem colocar se, porventura, quiserem que a resposta seja negativa. Mais vale estarem caladinhas (como em tantas outras ocasiões em que perdemos muitas oportunidades de estar caladas), porque a maioria gosta e não dispensa ( mas atenção, eles também só o consideram de facto o nome que se lhe dá, quando é bem feito!). No entanto este tipo de pergunta dá-nos avanço para outro tipo de perguntas, ainda mais íntimas, ainda melhores.... Que fazem superar expectativas e nos fazem superar a nós mesmas ( e a eles!) no sexo! 
"Vai uma rapidinha?!" - se ambos revelarem interesse, vai sempre... E bem sussurrado ao ouvido, naquele ponto em que a tua saliva se evapora assim que beijas e, ainda assim, sentes a sua suculência? Sabes do que falo? Se não sabes experimenta (mas só com tesão- sem esta nada feito... Os beijos passam de húmidos a secos).
Com ele eram húmidos, húmidos de suor, húmidos de força, de gana, de vontade, de abraçar as línguas envoltas nos corpos fundidos. E assim era a nossa união, a minha com o Catorze.
Ele era esperto. Mas eu era bem mais do que ele! Aliás, espertos são os burros! Ele era esperto demais, demais vezes catorze, tal como o seu nome. Eu, astuta, que bastasse (tarefa pouco desgastante).
A verdade é que éramos idênticos a nível de raciocínio. Engenhávamos quase tudo sempre sem falarmos. Sabíamos tudo. As horas de entrada, as de saída, as de pausa ou até aquelas em que sabíamos que os nossos turnos não se iam cruzar (e fazíamos 'trocas e baldrocas' para poder trocar horários e 'levar a areia ao nosso moínho')! Tudo isto, óbvio, sem dar qualquer tipo de bandeira. Éramos demasiado impessoais, juntos, perante as pessoas, e isso disfarçava, juntando a esse o facto de sermos extremamente amigos e ainda colegas de trabalho. Sou franca, ali, naquele local, as pessoas tinham uma mentalidade mais aberta do que àquela com que, à partida, estaríamos a contar. Mesmo que soubessem, as pessoas estavam a marimbar-se completamente para a nossa vida, mas nós e sobretudo eu, não pretendíamos essa exposição tendo em consideração o seu estado civil, e o meu ensaio. Eram coisas completamente diferentes mas cruciais neste tipo de relacionamento. E prestem muita atenção - se forem mesmo curiosas, ou surgir, vá, e chegarem mesmo a vivenciar uma experiência deste género lembrem-se sempre e estejam sempre cientes de que não é para ser de longa duração, simplesmente não pode! E se isso acontecer vão lembrar-se do que acabei de dizer. Por isso sirvam-se à vossa vontade, façam o que vos apetecer! Basicamente  aproveitem enquanto podem, sãos as chamadas ' pulgas que nos caem na cama de vez em quando'Em todo o caso, faz sempre bem bater com a cabecinha na parede, de vez em quando, faz 'turra' mas passa. Prometo que passa!
Outra coisa que aprendi com este capítulo é que para ser perfeito temos que querer demais, tem forçosamente que haver química. E eu queria-o demais, e ele queria-me a mim, e era uma merda de um ciclo vicioso.
Vontades, temos que ter vontades. Vontades daquelas que se acendem dentro de nós e logo nos fazem colapsar, por dentro... e por fora, quando não dá mesmo para disfarçar a química. Daquelas vontades que não fazem caso ao local, muito menos à hora, mas com tempo contado (sempre)! Eu tive-as com ele, com o Catorze, tantas que só eu sei. Mas essas tantas não significam concretização! Nada do que parece é! Nunca se esqueçam disso!
Na primeira vez em que estivemos juntos, em que nos explorámos um ao outro na intimidade, houve um contacto visual possante, poderosíssimo, de fazer tremer por dentro e por fora, de nos fazer vir sem sequer haver penetração. Foi mágico, selvagem, doce e das situações que mais vontade me despertou em toda a minha vida, no campo sexual, Logicamente! Foi surpreendente e nunca fiquei tão bem impressionada como na ocasião! Fiquei viciada, mudei de personagem, durante alguns meses, vá. Fui a "galdéria" com aquele homem, fui o que ele quis que eu fosse e eu fui-o apenas e enquanto eu quis. E não posso dizer que não tenha valido a pena, porque valeu.
Tudo isto porque este é aquele tipo de homem que nos dá gana. Que nos dá gana no sentido depreciativo porque para além das atitudes existem os factores desfavoráveis (e metam desfavoráveis nisso)!
Este tipo de homem é daqueles que gostam de ter uma vida dupla e o que merece são (e claro, se nos apetecer!) brincadeiras, safadas ou não, 'whatever'... e depois dar-se um eclipse. Dar-se o " eu ir" e o " eu voltar" quando eu quiser e se quiser! Fizemos uma espécie de um pacto que ele, definitivamente, não levou tão a sério como eu! Ele tinha o benefício de ter duas mulheres ( embora não o admitisse), e eu tinha a vantagem de ser dele só na sua companhia ( era pouca mas intensa), e minha, só minha em todo o resto do tempo. Tento guardar o máximo de tempo para mim. Tento, faço, esfalfo-me, dou o litro pelos meus sonhos todos os dias e se há coisa com que não consigo compactuar nesta vida é o facto de não estar bem ou num local ou com uma pessoa, haja o que houver. A sensação terá que ser boa para se viver, se não, de que nos serve a vida?
Entretanto chegou o seguinte para análise, e, a verdade é que já não era sem tempo! Já tinham sido várias as vezes, já chegavam, porque depois os caminhos ficam ainda mais apertados porque já envolve misturas de situações com emoções e sentimentos. As coisas tornam-se severamente mais intensas. E não é isso o desejado, para já. 
Como não existe espaço de manobra para duas análises em simultâneo, tive que passar à frente! Chupou no dedo, e não houve mais brincadeira para ninguém. 
Não passou de diversão, de um flirt de várias vezes, com nexo mas sem sentido nenhum. Com tempo curto e contado. Com tesão. No fundo, só havia tempo para isso - tesão. 
Éramos a tesão um do outro. Ambos obcecados pelo sexo um do outro. 
Talvez uma variante de paixão misturada nesta coisada toda.
"O fruto proibido é o mais apetecido". Ele vivia com a mãe da sua filha, por conveniência, segundo a versão dele. No entanto, e por mais descabido que seja, essa condição não afectava em nada o meu ensaio... aliás, muito pelo contrário! 
Ele era mais velho. Muito mais velho. Mantinha uma união de facto, e procurava fora de casa.
Ela sabia. Como é possível uma mulher chegar ao ponto de perder o amor próprio desta maneira?
Ele tinha charme, sabia estar e era fácil demais.
Cá para nós, estava em muito boa forma.
Era o meu "menaço" e eu a sua "bonequinha" e por ali ficou, pela história com o final feliz de cada um continuar a sua vida, sem constrangimentos. Na vida dele havia prioridades, e na minha, havia apenas uma - eu! "


Vanessa Cardui
(In "38 homens depois")





Foto: Vanessa Cardui







quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ensaio 1 - "Catorze das boas"

"Corpos que caem. Beijos que rebolam do sofá para a cama. As luzes, fuscas e pouco barulhentas, mas de gemidos silenciosos.
O sonar do nosso respirar que faz de todo o ar irrespirável a não sermos nós, um ao outro. Encaixávamos tudo o que nos era físico e, para nós, isso era o bastante.
Seda. Aquela cama de seda, apetecível e quase imaculada, onde não se ia assinalar a pureza de um amor, mas sim de um prazeroso sexo. O nosso suor fazia com que a seda se colasse em vez de deslizar, ficando os nossos corpos ainda mais juntos, mais apertados, mas descontinuados... Mais nossos...
Para ele, eu tinha um cu em forma de coração...e, irremediavelmente, para mim, ele tinha um coração apenas e só no seu sexo! E que coração!
Era o suficiente, no fundo, termos um coração um para o outro e dava jeito que esse não fosse para amar. E assim era, e assim foi!
O Catorze tinha uma forma muito peculiar de me satisfazer, para além dos seus bons atributos físicos, através do seu toque. Conseguia fazer com que se parecesse com uma pena... Conseguia fazer com que se parecesse com uma vida... Toques aleatórios, leves e subtis, dotados de carinho e protecção mas possantes, em simultâneo, repletos de desejo, de sede de finito e de infinito; fome, fome de cão por aquilo que não se tem na hora que se quer ter; ansiosos para que a hora mude mas que se esqueça de mudar, ansiosos pelo que nunca tivemos que nunca (mas nunca) queríamos ter! Objectivos distintos, modos de pensar completamente díspares! Só naquilo nos entendíamos bem...
E eu sabia, não só por senti-lo também mas por to ouvir dizer entre dentes e de forma quase muda...
"Não saias daqui..."
Eu fingia que não ouvia, mas ficava por mais aqueles momentos que sabia que entretanto se esgotaríam, como sempre...
Com o Catorze, as vezes que foram não sobraram... E todas elas valeram a pena!"



Vanessa Cardui
(In "38 homens depois")


Imagem: Vanessa Cardui